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sábado, 24 de setembro de 2011

TALAGADA SAUDOSA

BACANALDO E ANTIGUÉCIA

Gosto de bares que não enganam, bares de verdade, que não são caça-níqueis e que tem alma. Gosto enfim de bares bacanas. Quem não gosta?! Mais bacanas ainda se forem antigos, daqueles que já funcionam no piloto automático e adquiriram todo o “savoir faire” da noite paulistana. Daqueles, aliás, que esbanjam esse “savoir faire”. Só um dono extremamente incompetente, um néscio com MBA, é capaz de levar à bancarrota um estabelecimento comercial que dá certo há 17 anos! Ainda bem que não é este o caso do Barnaldo e Lucrécia (Rua Abílio Soares, 207). Na lida desde 1994 o simpático boteco tem motivos de sobra para continuar existindo. Primeiro porque é um bar cujo modelão é o dos bares dos anos 70 e 80, hoje raros na cidade. Segundo porque continua preocupado em oferecer sabores e sons genuinamente brasileiros, o que é mais raro ainda nesta terra de amantes do sertanejo universitário, da fast food e do hip hop (ou seria fast fod e hip hoop?).
O bar nasceu pelas mãos de um simpático casal de amigos (Arnaldo e Lucrécia, mais conhecida como Lú e tempos depois dona do Bar da Ló, nos Jardins) que tempos depois passou o boteco nos cobres. A decoração permanece a mesma, ou muito parecida com a do dia da inauguração, ou seja, é uma reprodução paulistana dos armazéns de secos e molhados do interior do Brasil. Pode ser do interior de São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Norte, Paraná ou do Rio de Janeiro, porque o jeito é acolhedor, aconchegante, típico do Brasil de antanho.
O cardápio não foge à tipicidade da decoração. Petiscos brasileiros de estirpe inconfundível: pastéis (palmito, bacalhau, carne, queijo brie com damasco), caldinho de feijoada com torresmo, caldinho de mandioca, lingüiça dragão, mandioca frita com molho de carne moída (ui!), bolinhos de arroz, de queijo, de mandioca, bolinhos de feijoada (o que será isso meu Deus?!), sanduíches, filés aperitivo e saladas. Para entornar, cervejas (garrafas grandes) nacionais e sulamericanas, vinhos, whiskies e uma boa carta de cachaças e de caipirinhas (com destaque para as de morango com pimenta rosa e melancia com gengibre).
Nos dois andares do bar se ouve MPB ao vivo, no bom e velho estilo “um-banquinho-e-um-violão”, sempre com qualidade bem acima da média. Bons nomes já passaram por lá nos últimos anos. No andar de cima, casaizinhos trocam juras de amor à meia luz. No andar de baixo a azaração rola soltíssima e é exercitada em suas formas clássicas e consagradas, sem contra-indicações. Mas isso é mais para a garotada na faixa dos 30 e poucos anos.
Sempre que vou lá tenho a estranha sensação de voltar no tempo. A vista anuvia, o ambiente gira (depois de três cachaças então...) e parece que estou de volta aos meus 30 anos de idade (ô sodade!). Quem não se lembra daqueles barzinhos clássicos da Henrique Schaumann ou da Avenida Ibirapuera, época em que os maus filhos de famílias boas caçavam impiedosamente as meninas boas de famílias más?
O fato é que o Barnaldo fez história na noite da cidade e de certa forma ainda faz. É  mais ou menos como o programa Castelo Rá-Tim-Bum, produzido no início dos anos 90 mas reprisado à exaustão anos a fio e por isso adorado por crianças de 2 a 18 anos de idade.
Pois por sobreviver assim é que o Barnaldo Lucrecia vai sobrevivendo mais ainda e atravessando as gerações, sempre com a mesma proposta e o mesmo jeitão. Parece que ele contraria a regra definida pelo grande poeta inglês Alexander Pope, que dizia: “Ano após ano rouba-nos algo todo dia...E acaba por roubar-nos de nós mesmos”!

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

TALAGADA MINEIRA

AI MEU SÃO XOPOTÓ!

Alguém, em pleno gozo das funcionalidades mentais, já parou para se perguntar o que quer dizer Xopotó? Pode ser, alguns diriam, o som de um potro selvagem cavalgando sobre a pradaria verde. Xopotó, xopotó, xopotó....Pode ser ainda a designação carinhosa da cerinha da orelha do porco, ou o nome indígena para a região glútea das fêmeas (que xopotó tem a Potira hein?!). Não é nada disso. Xopotó é nome de um pequeno riacho das Minas Gerais, que o bairrismo e as reminiscências de infância de alguns fazem parecer um Danúbio. Ele nasce na vertente nordeste da Serra da Conceição, inserida nas grimpas da Mantiqueira, no município de Desterro do Melo. A partir da sua foz, essa é a mais alta e a mais distante das nascentes de todos os cursos d´água que formam a bacia do Rio Doce. Interessante.
Evidentemente (porque este é o nosso assunto), também é nome de um bar em São Paulo. O Xopotó, na Rua Dr. Fadlo Aidar, nº 136 (continuação da João Cachoeira, que termina bem em uma rua com nome de rio).
O fato é que até hoje não descobri se o Xopotó é bar ou restaurante, mesmo porque alguns estabelecimentos tem as características de ambos e se confundem. Não importa, vamos fingir que é bar!
A decoração é simples porém cuidadosa. É como se você estivesse numa casinha da praça da matriz, em São João Nepomuceno. Uma florida área externa ao fundo, com fUgão a lenha e tudo, é o melhor lugar da casa nos dias mais quentes.
A carta de cachaças, como não poderia deixar de ser numa casa mineira, é um trem doido sô! A maioria das caninhas é da região de Salinas, que está para a cachaça assim como a região de Bordeaux está para o vinho.
A comida então é boa dimais da conta. Costelinha suína com ora-pro-nóbis, tutu, angu e arroz, Galinhada mineira, Lombo com feijão tropeiro, couve e torresmo, Feijoada (todos os dias!) e os clássicos leitão a pururuca e galinha ao molho pardo, o prato que Bela Lugosi amava.
O Xopotó, para mim, tem um apelo sentimental porque foi lá onde conheci e conversei pela primeira vez com a mulher que se tornou minha patroa. Mas isso são intimidades e particularidades que não cabem aqui. O que importa é que é um lugar completamente diferente dos restaurantes mineiros da cidade, como o Consulado Mineiro por exemplo, que virou um hit há alguns anos sem tomar o cuidado de preservar a qualidade da cozinha, ou seja, no Xopotó a comida é bem feita e o acento mineiro, autentico.
Mas mesmo que você não seja muito chegado aos torresmos e costelinhas, o Xopotó ainda é um bom lugar para ir. Porque? Caus´que é um lugarzin bunitin, o povo é bem simpatiquin e tem uns trem bão prá bebe.
Quanto à simpatia, essa tem realmente de sobra. Se Otto Lara Resende de fato disse que o mineiro só é solidário no câncer, eu digo que o mineiro é solidário também à mesa do jantar, porque eu não conheço povo que empreste ao ato de se alimentar um sentimento tão maternal e aconchegante.
Tenho muitos e bons amigos mineiros e sei bem disso. Ô povo bão pra conversá! De mais a mais, se é para parafrasear alguém, prefiro o mineiro mais famoso de todos, Carlos Drummond de Andrade, que disse sobre Minas que “é o estado mais conservador da União, porém o que abriga o espírito mais livre”! E num é qui é messss....

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

TALAGADA FELIZ.

A FELICIDADE É.....

Quem dentre os mortais não tem uma história de genuína felicidade para contar? A pureza, a inocência, a honestidade, valores tão antigos quanto desprezados hoje, pautaram histórias de superação, de trabalho e dedicação, principalmente (mas não exclusivamente) entre os imigrantes que adotaram a cidade nos séculos anteriores. Por isso hoje quero contar a história de um bar que tem o mesmo nome da matriarca que o comanda, chamado “Dona Felicidade” (Rua Tito, 21). Tudo começou em 1934, quando dois portugueses, Sr. Manoel Bastos e Dona Felicidade Bastos, desembarcaram no Brasil ainda meninos, o Sr. Manoel com 12 anos e Dona Felicidade com 9. Vieram em navios diferentes, mas com algo em comum: a vontade de construir um futuro, uma família, uma vida. Como todo imigrante, seus objetivos eram o de prosperar e vencer. Naquela época o trabalho era o único caminho.
Casaram-se em 1945, quando a 2º Guerra Mundial fazia parte do cotidiano. Em 1946 o Sr Manoel comprou junto com alguns sócios um pequeno bar no Brás, mas como ele mesmo dizia, “sociedade termina uma parte com o dinheiro e a outra com a experiência“. Pois foi assim, ele saiu com a tal experiência e a vida continuou, simples, honesta e dura. A família aumentou para um total de “cinco filhos maravilhosos”, como diz Dona Felicidade e o Sr. Manoel, nos anos 50, adquiriu uma mercearia na Avenida  Pompéia. Todos conheciam o Sr. Manoel no bairro. Seus petiscos e sua simpatia eram elementos de um marketing espontâneo difícil de se ver hoje em dia.
Na época a mercearia de esquina, como todas, não servia refeições. Mas havia sim uma pequena copa para os petiscos e a cerveja sempre gelada. Dona Felicidade fazia questão que o Sr. Manoel almoçasse em casa. Como moravam no predinho em cima da mercearia, era fácil, apenas alguns lances de escada e pronto ! Nos dias de maior movimento ela trazia o almoço para o marido na própria mercearia e os clientes perguntavam ao Sr. Manoel sobre a possibilidade de conseguir um “pratinho“ para eles também. Cansada de subir e descer as escadas Dona Felicidade disse ao marido : - Mané, acho melhor a gente descer o fogão aqui pra baixo!
Foi assim que a mercearia dos anos 70 se transformou em uma “lanchonete“, onde se servia uma comida caseira maravilhosa, feita por Dona Felicidade. Vinha gente de todo canto da cidade e muita gente famosa começou a aparecer por lá para cometer o pecado da gula sem culpa.
O “boteco” ganhou um apelido interessante. Em razão do toldo que não cobria todas as mesas externas começou a ser chamado de “Pé Prá Fora”, e pegou! O apelido e o boteco.
Nos anos 90 Sr. Manoel desencarnou e Dona Felicidade, no comando da família, resolveu mudar o boteco para o endereço atual, um grande galpão na Rua Tito, com todo o jeitão de ter sido um depósito ou uma fábrica em priscas eras.
Dona Felicidade, com mais de 80 anos, continua pilotando a cozinha maravilhosa. A começar do bolinho de bacalhau, totalmente excelente. Calma que tem mais! Quanto aos pratos, o que você me diria de um filé mignon ou uma picanha, ambos ao alho? Ou uma costelinha suína na brasa, um carré de cordeiro, ou um virado a paulista e uma feijoada, tudo feito no capricho?!
O ambiente despojado pede uma boa variedade de cervejas e nesse quesito nossas preces são plenamente atendidas: são 38 rótulos incluindo a rara Therezópolis, a excelente argentina Quilmes e a família Baden Baden de Campos do Jordão, recentemente adquirida pela Ambev (pena).
Apenas os horários de funcionamento, bastante restritos, contam ponto contra. Eu já dei com a cara na porta algumas vezes e, pior, quando a fome bate. No mais, o Dona Felicidade é felicidade pura mesmo! E para terminar citando o atualíssimo poeta francês Nicolas Chamfort, digo que “dá-se com a felicidade o que se dá com os relógios: os menos complicados são os que enguiçam menos”!

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

TALAGADA APIMENTADA.

BIBA MÉRRICO!

Para quem não conhece, o México é um país verdadeiramente encantador, em todos os sentidos. Estive lá há alguns anos e me apaixonei perdidamente pela História, pelas cores, pela comida e a tequila. Sem contar que os mexicanos nos adoram. Não a toa houve recentemente um significativo aumento de casas “mexicanas” em São Paulo, tamanho é o interesse dos brasileiros pela culinária incrível daquele país, a qual tantas vezes tentei reproduzir na pilotagem do meu fogão, sem muito sucesso.
Um dos bares/restaurantes mexicanos mais antigos da cidade é o “Viva México” (Rua Fradique Coutinho, 1.122). Na minha opinião também é um dos melhores, ou na pior das hipóteses o que reproduz mais fielmente os sabores peculiares do país sangrentamente conquistado por Hernan Cortez. Na lida desde 1992, o Viva México permanece até hoje do mesmo jeitinho de quando foi inaugurado. Até os garçons são os mesmos.
O ambiente do boteco é minúsculo e a decoração é obviamente típica. Sombreros, bandeirolas coloridas, garrafas de tequila nas prateleiras e fotos dos grandes vultos mexicanos da história nas paredes. Venustiano Carranza, Porfírio Dias, Francisco Madero, Álvaro Obregón e porque não os heróis da revolução mexicana de 1910, Pancho Villa e Emiliano Zapata (interpretado nas telas por Marlon Brando), estão todos lá. No terreno das artes, algumas reproduções e fotos de Diego Rivera, Davi Siqueiros, Rufino Tamayo e Frida Kahlo, minha preferida!
A cozinha, se não dá vontade de aplaudir de pé, também não é de se vaiar. É evidente que todo restaurante de comida temática nunca consegue reproduzir fielmente os pratos do país de origem. Os vegetais são diferentes, as carnes tem outro sabor, os temperos, as ervas...etc. Mesmo assim, o Viva México procura, dentro das possibilidades, ser o mais fiel possível. Não espere encontrar lá a comida “tex-mex” (texas/méxico), com as tortillas douradinhas e fritas. Não. As tortillas de lá são iguais às do país mãe, moles e na chapa. E são deliciosas!
Na Cidade do México a comida de rua é um patrimônio cultural. São milhares de “taquerias” espalhadas pela imensa cidade. Bibocas meio sujas, com a carne girando no espeto vertical, banhada em pimenta vermelha ou jalapeño, igualzinha ao nosso churrasquinho grego. Há que ter a coragem de Montezuma para comer um taco nesses lugares. Pois o Viva México pretende ser uma taqueria. Mas na verdade não é. O país sede, através das importantíssimas culturas azteca e maia, legou ao mundo a pimenta, o chocolate e o milho (é pouco?). Com esses três ingredientes (e mais alguns) é possível criar maravilhas. Experimente no Viva México, por exemplo, o taco a la parrilla (para duas pessoas), chili com carne ou o frijole (feijão) refrito. Excelentes! Mas existem muitos outros pratos e antojitos (aperitivos) no cardápio. Burritos (uma espécie de caneloni mexicano), fajitas (tiras de carne com vegetais), quesadillas e tantos mais! Só tome muuuuito cuidado com as pimentas. No México passei indescritíveis apuros por causa dela. No Viva México não é muito diferente. Quem tem gastrite ou outros problemas vasculares mais ao sul, é prudente evitar. Mas como diz o velho adágio, passarinho que come pedra.....
Para beber, algumas boas cervejas mexicanas como por exemplo a excelente “Dos Équis” (dois X), minha preferida, e as margaritas (marGUErita é pizza pô!!!), frozen ou tradicional. Para os mais corajosos, boas tequilas e mezcal, mas isso é bebida pra gente grande, sem filhos e sem apego à vida.
De vez em quando aparece por lá um trio de mariachis, todos com a inconfundível cara de bolivianos ou peruanos. Evite também. É muito ruim e nem de longe parecida com a verdadeira música mexicana. Isso porque existem poucos mexicanos de verdade no Brasil. Eles preferem se aventurar na fronteira mais ao norte e, invariavelmente, se dão muito mal. Como disse o político Porfírio Diaz, “pobre México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos”!
Para quem já conhece e gosta de comida mexicana, o Viva México é “o” lugar. Para quem nunca se aventurou, também. Mas repito o alerta. Tenha sempre em mente a frase do sábio brasileiro Érico Veríssimo que diz que “a alma mexicana pode comparar-se a uma lavoura de milho de aparência tranqüila. Mas cuidado, forasteiro! A qualquer momento a roça pode explodir num vulcão sem aviso prévio e toda a contida e ardente lava brotará com fúria mudando por completo, em poucos minutos, a paisagem em torno”. Por “ardente lava” entenda-se “pimenta”!

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

TALAGADA CARNÍVORA.


VILMAAAAAAA...

Quem não se lembra? Na abertura do desenho animado “Os Flintstones” Fred tira o tigre dente de sabre de dentro de casa. Logo após é o tigre quem o expulsa e ele fica do lado de fora batendo na porta e gritando “VILMAAAA”! A imortal criação de Hanna e Barbera embalou as tardes de muito marmanjo. Incluindo euzinho. Sempre quis ter um dinossauro de estimação, ou um carro com propulsão de sola de pé. Uma vez até tive um. Era um fusca tão enferrujado que quase fica sem o piso.
Sonhei muitas vezes com os filés de brontossauro que Fred e Barney devoravam e este sonho também se concretizou no dia em que encontrei alguma coisa bem parecida. Evidentemente foi no Sujinho – Bisteca D´Ouro (Rua da Consolação, 2038). Um barzão na fulgurante esquina da Consolação com a Rua Maceió.
A história do Sujinho é pouco conhecida. Não se sabe exatamente se nos anos 60 ou 70, era um simples boteco ao lado do Teatro Record, que, de repente, começou a servir algumas refeições. Os apelidos da espelunca pegaram. Sujinho, por motivos óbvios (quem o conheceu nessa época sabe o porque) ou o sub-apelido “Bar das Putas”, numa singela homenagem às corajosas moças de vida fácil (hãhã!) que faziam o “trottoir” nas redondezas, perto do Cemitério da Consolação ou na famosa “casa da luz vermelha” da “Tia Olga” (lugar preferido de 11 entre 10  adolescentes da época).
O filé de brontossauro ao qual me referi acima era uma bisteca bovina gigante, de 700 gramas de carne suculenta e osso, que até hoje é o carro chefe da casa e necessita de dois garçons para trazê-la à mesa. A simples visão da imensa iguaria causa um inesquecível impacto e já satisfaz. Quantas madrugadas, pós aventuras e desventuras, fui até lá matar a fome antes do sono dos justos! Uma bisteca e a saladinha de repolho! É tudo o que um homem necessita depois das 3 da manhã! Certa vez o estado alcoólico era tão desesperador que adormeci sobre a bisteca, certamente achando que era o melhor travesseiro de pena de ganso com cheiro de churrasco do mundo!
O fato é que nos anos 80 o boteco, nas mãos de novos donos portugueses, se popularizou. Nos anos seguintes uma extensa reforma transformou-o num lugar um pouco mais apresentável e duas outras filiais foram inauguradas. Mas o Sujinho (que acabou se apropriando do apelido transformando-o em nome oficial) continua tendo uma indisfarçável vocação para a madrugada. Continua sendo um destino seguro para os boêmios esfomeados de plantão!
Além da bisteca já descrita a grelha do boteco ainda produz algumas outras maravilhas. Picanha, cordeiro, espeto misto e um pintado na brasa dos deuses, tudo em tamanhos dinossáuricos, que fariam de Fred Flintstone o mais feliz dos neandertais. 
Mas liberte o T. Rex que existe dentro de você e ataque de bisteca, pelo menos na primeira visita. Acredite, se eu fizesse uma lista chamada “100 pratos para devorar antes de morrer” a bisteca do Sujinho figuraria em 7º, talvez 6º lugar.
Para bebericar, as cervejas nacionais de sempre em garrafas grandes. Não me lembro de muita coisa mais porque sempre estive lá na alta madrugada, em condições que não me permitiam beber um gole sequer.
Para finalizar, volto ao assunto da reforma. Sim, o bar ficou bem mais agradável e ganhou um andar de cima. Virou um Sujinho arrumadinho. Mas sou obrigado a professar a minha inevitável admiração pelo boteco pé-sujo. O Sujinho já foi um pé-sujo autêntico, com azulejos de péssimo gosto nas paredes, chão mais gorduroso do que cabelo de galã dos anos 30 e uma churrasqueira fumacenta na entrada, Saudade! Como disse Luiz Fernando Veríssimo, boteco bom é aquele onde os ratos usam máscaras cirúrgicas e as baratas fazem passeata na porta contra as péssimas condições de higiene!


sexta-feira, 19 de agosto de 2011

TALAGADA DANÇANTE.

QUEM NUNCA VIU...

O samba amanhecer? Vai no Bixiga prá ver, recomendaria o grande Geraldo Filme. Isso nos anos 60 ou 70. Hoje o bairro, que já foi reduto do samba e berço da querida Escola de Samba Vai Vai, é um nostálgico arremedo do que já foi um dia. De seu passado de glórias, de bairro boêmio da cidade, só restaram os antigos casarões. Os bares mais famosos, Café Soçaite, Boca da Noite, já fazem parte da história. Sim, após décadas de exploração desenfreada, de especulação imobiliária, de ausência de investimentos públicos que prestigiassem o evidente destino turístico do bairro, o querido Bixiga agoniza. Mas não morre! Como dizia o poeta inglês Samuel Butler, “quem está em baixo não pode cair mais fundo”.
Apenas um bar decente restou, para representar o inebriante passado da velha ladeira da Treze de Maio. É o Café Piu Piu (Rua Treze de Maio, 134). E continua pulsante desde a inauguração em 1983, em plena e agitada atividade, quase todos os dias da semana, com um público mais fiel do que um labrador carente!
Ao chegar na entrada temos a impressão de que é um lugar pequeno, mas após a primeira e única porta um vasto salão se abre, com mezanino e tudo. O ambiente é escuro, como convém a uma casa de shows e de dança, mas a decoração (que não muda há muitos anos) é bacana e aconchegante. Um bar enorme, com muitas garrafas dispostas na estante iluminada (bacana), janelões com vitrais, mesas com tampo de mármore, é no mínimo um lugar diferente.
No departamento comes e bebes não foge muito do normalzão. O clássico dos clássicos provolonão à milanesa está lá! Ainda tem o tal de “latke”, que é um bolinho frito de batata ralada, escondidinhos, beirutes, sanduíches e bruschettas, mas fala sério, com a profusão de cantinas na vizinhança (algumas ainda boas), você não vai cometer o desatino de ir lá para jantar! Para beber, o-bom-e-velho-chopp-Brahma, cervejas long neck (para mim long neck é girafa), Pina Colada, Cuba Libre e caipirinhas. Pronto, é o que há de destaque.
Como acontece com vários bares aqui tratados, o forte da casa é a música ao vivo. Em seu enorme (para um bar) e super bem localizado palco já passou (e ainda passa) muita gente bacana. Mônica Salmaso em comecinho de carreira, Vanessa da Mata idem,....e tantas outras vozes hoje Globais! Lembro-me com nostalgia dos tempos em que a excelente banda de gafieira CometaGafi, dos meus amigos Adilson Rodrigues, Cláudio Duarthe e troupe, se apresentava lá um domingo por mês. Era sensacional. Hoje, a programação é variadíssima, para gregos e troianos, mouros e cristianos. Nas quartas tem de tudo, fado, jazz, etc, etc, com boas bandas em geral desconhecidas. Às quintas, sextas e sábados, classicões do rock para nós, os dinossauros que ainda lamentam que já não se fazem mais bandas como Led Zeppelin, Uriah Heep, Pink Floid, The Doors, Beatles/Rolling Stones, Deep Purple e outras tantas mais! Aos domingos a programação é variada e geralmente boa, com shows e eventos de escolas de música. No geral é tudo muito interessante. Principalmente se le gusta bailar!
Para finalizar, há alguns anos ouvi da boca da dona do Piu Piu uma história curiosíssima. Numa pequena reforma do bar descobriram que no subsolo há, intocado, um teatro antigo (do século 19 provavelmente), que nem os historiadores do bairro sabiam que existia. Na época a idéia era conseguir um patrocínio para restaurar, preservar e recuperar o teatro para shows, colocando no Piu Piu um chão de vidro (bem resistente evidentemente), para que as pessoas pudessem ver o teatro iluminado sob seus pés. Seria simplesmente maravilhoso se isso acontecesse! Porém, como eu nunca mais ouvi falar do assunto, acho que o patrocínio não veio, as autoridades não se interessaram (como de costume) e o projeto se perdeu. Mas o teatro, espero, ainda está lá!!! Pena que ninguém mais dá importância a isso! Pena!!!

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

TALAGADA CHATEADA

BÄR DES DEUTSCHEN

Bem ali pertinho da sede do melhor time de futebol do mundo, a gloriosa Sociedade Esportiva Palmeiras, vários bares pulularam. Muitos deles para que os tifosi palestrinos comemorassem as altaneiras vitórias do Alviverde de Parque Antártica, hoje carinhosamente conhecido como porcooooooooo, entornando cerveja em quantidades maiúsculas. Até o nome do antigo estádio (que em breve dará lugar à cintilante Arena) induz ao consumo do nobre líquido. Isso porque antes que a Societá Sportiva Palestra Itália o adquirisse era um parque da cervejaria Antártica, onde no início do século passado os moçoilos de chapéu de palha iam passear com suas namoradas e beber cerveja! O local tem, pois, tradição no que diz respeito ao consumo do saudável e saboroso sub-produto da cevada.
Já bem mais tarde, em 1968, tempos da inesquecível academia de Ademir da Guia e Dudu, surgiu ali ao lado o Bar do Alemão (Avenida Antártica, 554). E já nasceu com uma iniludível vocação para perdurar no tempo.
Desde os primórdios o bar teve uma decoração bávara. Ela foi mantida até hoje. Dá a impressão de que Joseph Mengele vai entrar pela porta a qualquer momento e pedir um chopp e um salsichão geneticamente modificado. O ambiente é pequeno, com poucas mesas e tem um mezanino menor ainda. Mas é aconchegante.
O chopp sempre foi bom e para acompanhar peço sempre uma porção de canapés bem interessante. Mas tem também um bom churrasquinho (sanduíche), salsichões, omeletes e boas comidinhas alemãs. Já a música ao vivo, não tem nada de alemã! (meno male).
Segundo o economista e bandolinista Luís Nassif e minha amiga Roberta Valente, excelente percussionista e pesquisadora de texto impecável, o primeiro dono do Alemão, Murilo, fechava o bar oito da noite e depois disso só entrava quem era músico. O próximo dono, o pandeirista Dagô, elevou definitivamente o boteco ao patamar de reduto de boa música. Em suas mesas estiveram Cartola, Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola e Paulo César Pinheiro. É brincadeira?!
Hoje um dos donos é nada mais nada menos do que Eduardo Gudin, na minha opinião um dos principais representantes do genuíno samba paulistano e compositor inspiradíssimo. Garantia de que o bar tenha boa música todas as noites. E tem. Além das aguardadas e celebradas canjas de Gudin, o lendário percussionista Jorginho Cebion, o ótimo violonista da noite Valdo, Henrique ao cavaquinho e bandolim, a maravilhosa cantora Dona Inah, a pequena/grande percussionista Kika, o violão de Serginho Arruda e muitos outros mais estão sempre por lá, na mesa redonda ao centro do bar, cuja foto já foi até capa de disco do dono em priscas eras. Boêmia em estado puro! Quem conhece esses nomes sabe do que estou falando. Isso faz com que o clima reinante no bar, todas as noites da semana, seja de permanente festa, de roda de samba da melhor qualidade, salvo algumas raras e inexpressivas exceções.
Falando nisso, como todos os bares da cidade, o Bar do Alemão tem um probleminha: A quantidade de chatos que freqüenta o lugar é insalubremente excessiva e uma vez que o bar é pequeno a chatice se eleva à enésima potência. Tem tanta mala que parece o depósito da Le Postiche. Mas convenhamos, num honesto exercício de auto-crítica é forçoso reconhecer que todos nós temos um chatão morando aqui dentro (esse meu papinho mesmo é muito chato) e como dizia Guilherme Figueiredo no genial livro Tratado Geral dos Chatos, “todo indivíduo tem o chato que merece. É impossível chatear o chato. Dois chatos da mesma espécie não se chateiam”.